Crítica | Coringa: Sob o olhar da Psicanálise, por Alexandre Patricio

Atenção! – Contém Spoilers.

“No osso da fala dos loucos há lírios” – Manoel de Barros

“Coringa” é um filme que, certamente, desconserta a gente. Não só pela atuação magnífica de Joaquim Phoenix, mas por ter um enredo aliado ao conjunto composto por trilha e fotografia que, juntos, possuem a capacidade de nos deixar, no mínimo, perturbados.

Trata-se da história de um indivíduo sem qualquer história; dominado pela sensação de inexistência (como se toda sua vida não fizesse sentido algum). Uma vida atravessada pela psicose materna e, também, pelas chagas oriundas da violência, do trauma e do precipício infindável do abandono.

Ele não teve oportunidade de integrar o seu ego, porque foi desamparado e violentado. Inicialmente pela mãe, depois pelo Sistema de Saúde Pública e, por último, pela indiferença eminente do Estado (e dos sujeitos que o constituem).

Obrigado a ser “Feliz” – pois era assim que sua mãe o chamava [Happy] – Arthur Fleck desenvolve um falso self, estruturado pelo sintoma de uma risada involuntária; um riso maníaco que camufla sua fragmentação psíquica.

Um riso de dor. Um riso vazio que ecoa e assombra! 

Enquanto tenta “ser normal”, o nosso Coringa padece subindo as escadas da vida (cena simbólica mostrada diversas vezes no filme). E como é difícil subir as escadas… é cansativo.

Afinal, como o próprio Arthur escreve em seu diário: “A pior parte de se ter um distúrbio mental é que as pessoas querem que você se comporte como se não o tivesse”.

A dor ignorada, a loucura marginalizada, despertam o verdadeiro self de Arthur. Ele destrói. Ele agride. Ele mata (e não nos surpreende!). Aqui, ele passa a descer as escadas – e como é fascinante esse movimento! Desce os degraus, primeiro, no hospital psiquiátrico quando descobre a verdadeira origem da identidade materna. E, depois, na cena mais maravilhosa do filme, ele desce as escadarias de um pavimento público, “flutuando”, em êxtase, liberto e aliviado por ter descoberto quem é de verdade: o Coringa!

O filme nos perturba, pois consecutivamente ele nos desconstrói. Nos lança luz sobre questões marginais que não pensamos a respeito (e nem queremos saber sobre).

Aprendemos com Arthur que é uma delícia ser você mesmo, por mais que isso soe absurdamente assustador! No entanto, o que possuímos soterrado em nosso interior? O que somos obrigados a camuflar perante as exigências narcísicas da sociedade? Quais os impactos disso para o sujeito (e para todos os outros)?

Coringa nos mostra da maneira mais delicada (e cruel) possível! Assistam! É um espetáculo!

Texto: Alexandre Patricio de Almeida, psicanalista. 
Instagran: @Alexandrepatricio