Por que o Brasileiro tem muito WhatsApp e pouca internet

Como os planos de redes sociais ilimitadas contribuem para o emprobrecimento do debate público no Brasil.


Como você se sentiria se tivesse a oportunidade de entrar na maior biblioteca do mundo, onde houvessem milhares de livros fascinantes, sobre todos os assuntos de todos os tempos e lá, avistasse uma placa dizendo que só é possível ler 5 livros, que foram pré definidos pelo bibliotecário?

Infelizmente essa é a realidade do Brasileiro, quando o assunto é acesso a internet.

Aproveitando ainda o uso de analogias, se a internet fosse um iceberg, a primeira coisa que Frederick Fleet, vigia do Titanic teria visto naquela noite, seriam as redes sociais. Na ponta mais alta, estaria o WhatsApp triunfando como um rei, do lado, um pouco mais abaixo, estaria o Instagram e Youtube. Fleet também avistaria essas redes cercadas pelo Facebook, Netflix, Twitter, TikTok, Spotify e entre outras.

Como é sabido, apenas cerca de 10% da massa do Iceberg emerge à superfície, sendo que a maior parte está debaixo d’água. Nesse caso, o que estaria oculto aos olhos de Fleet seria o Google, o grande portal de acesso a internet, o ponto crítico, onde é possível adquirir o conhecimento necessário para “afundar um navio”, ou derrubar um governo.

O que quero dizer com essa analogia é que a internet possui níveis de acesso, que vai do mais básico, até o mais profundo, onde se encontra a maior parte do conteúdo.

Navegar no nível mais básico da internet significa ficar velejando de uma rede social para outra, onde de fato está o tipo de conteúdo mais banal da internet. São conteúdos rasos, simples e apelativos, produzidos para atrair cliques, visando monetização e o consumo. 

Twitter

Quem tem mais repertório?, Quem faz um pão caseiro usando seu conhecimento sobre panificação, testando e criando uma receita, ou quem faz um pão caseiro seguindo uma receita da internet?

Frederic Skinner, um dos Psicólogos precursores do comportamentalismo, enxerga o uso demasiado das redes sociais como um “comportamento passivo”, que contribui para o empobrecimento de repertório**. Skinner explica que, quando alguém tem contato com muitas consequências imediatas prazerosas como por exemplo, ficar viajando de uma rede social para outra (como na imagem acima), são produzidos estímulos de atração, cativo, curiosidade, diversão, prazer e encanto, no entanto, esses estímulos não reforçam nada além de apenas olhar, saborear, assistir, ler e ouvir. Ou seja, o sujeito se torna pobre de repertório.

Não se trata de uma demonização das redes sociais, e sim sobre como essas redes limitam o conhecimento de quem as utiliza. Basta ver como acontecem as discussões nas redes sociais, sempre polarizadas, onde cada um se manifesta dentro da sua bolha social, sem olhar outros pontos. Cada usuário possui um um feed personalizado de acordo com suas crenças e realidade, o que exclui pontos divergentes, que poderiam trazer novos olhares sobre um assunto e contribuir para avistarmos um horizonte comum.

O Capital

É claro que o capitalismo tem um papel muito importante nisso tudo. A internet é um campo onde empresas lucram bilhões com anúncios e dados de usuários e mais recentemente com o próprio conteúdo. Agora o usuário também está pagando por notícias. Sites como The new York Times, Estadão, Nexo e Folha, estão cobrando o acesso. 

É justamente nas redes sociais onde as pessoas tem contato com os padrões de consumo. É na rede que as marcas encontram vitrines perfeitas para vender seus produtos e ideias. E quanto mais as pessoas utilizarem, maior será o público impactado pela mídia e consequentemente o movimento do mercado. 

Falando especialmente do Brasil, onde a maior parte da população é pobre e conforme a Jup do Bairro canta na música “Corpo sem Juízo” – “Eu não ganho o que mereço receber“, a única coisa que o trabalhador pobre tem energia para fazer no fim do dia é viajar e viajar pelas redes sociais, reforçando comportamentos passivos.

Pensando nisso, empresas de telefonia Brasileiras criaram recentemente um modelo de negócio pensado especialmente na população mais pobre. São os planos com redes sociais ilimitadas, onde o usuário paga um valor diário, semanal ou mensal e tem acesso ilimitado somente a redes sociais específicas. 

Veja alguns anúncios:

VIVO
TIM
CLARO
OI

Uma pesquisa realizada pelo TIC Domicílios ²  , mostrou que 70% da população brasileira está conectada, uma estatística que sobe a cada ano. A pesquisa também mostrou que 97% da população usou o celular para acessar a internet, sendo que 56% utilizou somente o celular para acessar a internet.

Esses dados também revelam o quão grande é a desigualdade do acesso.

Se 70% acessa a internet, logo 30% da população, cerca de mais de 50 milhões Brasileiros estão offline. A pesquisa também conclui que os mais pobres, aqueles que ganham até um salário mínimo, usam somente o celular para acessar a internet.

O fato de que metade dos Brasileiros vive com 413 reais mensais³ evidencia o quanto esses planos são direcionados a população com menos recursos.

Em uma entrevista recente, o humorista Gregório Duvivier fez a seguinte fala durante o programa “Painel Haddad”:

Gregório Duvivier durante entrevista no programa do Youtube “Painel Haddad”

Transcrição da entrevista:

“Às vezes parece que a internet piorou o debate público no Brasil, mas eu tenho impressão de que não é a internet – São os aplicativos. E acho que tem uma diferença. E é um problema para mim, inclusive do Brasil na internet hoje é que as pessoas acham que internet é o WhatsApp, por um problema inclusive de neutralidade de rede, porque tem muita companhia vendendo WhatsApp como se fosse internet, então fala: “WhatsApp Ilimitado”. Tem muita gente não tem dinheiro para ter a internet, o 3G, 4G, mas tem internet só através do WhatsApp e qual o problema disso?

Ela recebe a notícia, e ela não tem internet para clicar, para checar, porque ela só tem aquela plataforma, só lê a manchete, só lê a transcrição, e para mim, o problema todo do que aconteceu pelo menos nas eleições tem muito a ver com isso.

O brasileiro tem muito WhatsApp e muito pouca internet, então é como se você só tivesse acesso, dentro de uma cidade, ao shopping. Você não sabe o que tem fora dele, só tem acesso ao espaço privado dele. Então a gente tem uma sociedade está circulando dentro de shoppings que é um Facebook, Instagram, WhatsApp, e que não conhece a rua, que é a internet. A internet é muito mais vasta que as redes e sociais. A quantidade infinita de blogs, a quantidade infinita de saber circulando ali, de conhecimento real, checado tal, e as pessoas ficam se mandando coisa por WhatsApp e a culpa não é só delas, é também da internet no Brasil que não é democratizada, ela não é democrática. Se as pessoas tivessem mais acesso à internet o debate público seria bem melhor.”

Sequestro do saber dos sujeitos

O sequestro do saber, segundo o Filósofo Michel Foucault*, acontece quando os diferentes poderes constroem um outro saber, em cima do saber das pessoas, que fala delas, que as descrevem, diagnostica, que prescreve o que, como e quando deve agir, pensar, sentir. Enfim, que rumos deve dar à sua vida.

Então, a população pobre acha normal e bacana ter o WhatsApp o mês inteiro e ter apenas alguns gigas para acessar a internet, e as empresas vendem esses planos como se fossem um diferencial competitivo e sem querer, colaboram com esse sequestro do saber.

A Neutralidade de rede

Conforme Gregório destacou, isso também é um problema de neutralidade de rede. O Brasil possui o “O Marco Civil da Internet”, que estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet ¹ . Na seção 1, da Neutralidade de Rede, no art. 9º é definido:

“O responsável pela transmissão, comutação ou roteamento tem o dever de tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação.”

Tratar de forma isonômica, significa que todos os indivíduos são iguais perante a lei. Porém, quando se cria um pacote de dados, onde o usuário recebe uma notícia pelo WhatsApp e não pode acessar a internet, para no mínimo, pesquisar se a notícia é verdadeira, não se tem isonomia, afinal, a parte mais rica, que tem condições de pagar por um plano mais caro e com internet livre de muros, vai conseguir checar os fatos e formar uma opinião crítica (pelo menos se espera).

Não fazemos ideia, mas, mais da metade dos Brasileiros acham que a internet é o Facebook.4

O Facebook, que também é dono do WhatsApp e Instagram, lançou em 2014 um projeto chamado “Internet.Org”*, que nas próprias palavras,

“é uma parceria entre a empresa de serviços de redes sociais Facebook e seis empresas que planeja oferecer acesso a serviços de internet selecionados a países menos desenvolvidos aumentando a eficiência e facilitando o desenvolvimento de novos modelos de negócio em torno da oferta de acesso à Internet.”

O plano do Facebook era fazer parcerias com os governos, para oferecer internet gratuita, porém limitada a seus serviços. 

Em 2015, quando a então presidenta Dilma Rousseff se encontrou com Mark Zuckerberg, onde discutiram o assunto, não houve um acordo. Na época e até hoje, Zuckerberg sofre ataques de ativistas, que reivindicam o direito do acesso livre à internet. Em 2016 a Índia proibiu o programa Internet.org e o ministério público Brasileiro considerou o projeto “ilegal”.

Qual seria a diferença fundamental entre o Facebook oferecer internet gratuita para acesso a seus serviços e os planos dessas operadoras Brasileiras, que fazem a mesma coisa, só que cobrando?

Claro que existem brechas e interpretações nas leis, que permitem esta prática, mas temos que nos perguntar o que é melhor para o Brasileiro e para o debate público.

Vamos mudar isso?

Criamos um abaixo-assinado para enviar ao ministério da ciência, inovações e comunicações, que está sobre o comando do ministro Marcos Cesar Pontes. Esperamos reunir um número suficiente de assinaturas para, em conjunto com o governo, providenciar um ajuste na lei do Marco Civil da Internet, garantindo a neutralidade de rede para todos os Brasileiros.

Link para o abaixo-assinado:

http://chng.it/yXNyy2sBjh

Fontes:

¹ http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2014/Lei/L12965.htm

²  https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2019/08/28/uso-da-internet-no-brasil-cresce-e-70percent-da-populacao-esta-conectada.ghtml

³ https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,metade-dos-brasileiros-vive-com-r-413-mensais,70003051718?utm_source=estadao%3Afacebook&utm_medium=link&fbclid=IwAR0mX1CHhKUAdSi7_U2xsXCsr_q5d4Cen6sD0DqIYkSS39OSwgjstGM16eM

4https://olhardigital.com.br/noticia/55-dos-brasileiros-acham-que-o-facebook-e-a-internet-diz-pesquisa/65422

*COIMBRA, C. M. B.; NASCIMENTO, M. L. O efeito Foucault desnaturalizando Verdades, Superando Dicotomias

**Livro: A Depressão como Fenômeno Cultural da Sociedade Pós-moderna – Parte I: Um Ensaio Analítico-Comportamental dos Nossos Tempos/ Yara Nico. – São Paulo, 2015. 112p. Outros autores: Jan Luiz Leonardi e Larissa Zeggio

*https://itmidia.com/india-proibe-programas-internet-org-e-free-basics-do-facebook/