6 lições sobre relacionamento que Marília Mendonça NÃO me ensinou

Atenção: Esse texto não tem o objetivo de satirizar, desmerecer ou menosprezar as músicas citadas. Muito pelo contrário, nós Amamos a Marília Mendonça.  

Segura essa sofrência ai…

Muitos artistas já confessaram que utilizam suas músicas para expressar seus sentimentos mais profundos, ou seja, uma música, por mais simples e boba que possa parecer, pode revelar (e muito) a forma como esse artista pensa e estava se sentindo momento em que escreveu a letra.

O mesmo ocorre quando nos apaixonamos por uma música, porém o processo ocorre de forma inversa. Em vez de investigarmos nossa mente a fim de expressar nossos sentimentos de forma empírica, o que é bem difícil, nós identificamos o sentimento expresso pela música e adaptamos à nossa realidade, até porque esse processo é muito simples e rápido. A partir daí, podemos expressar o que está em nossas mentes de várias formas.

E o que acontece quando ouvimos uma música que, nas entrelinhas, passa uma mensagem não muito saudável?

Isso é muito comum em músicas sobre relacionamentos, com destaque para a cena do sertanejo atual, expresso por fenômenos como Marília Mendonça, Wesley Safadão, Maiara e Maraisa e outros.

Ou seja, se você se identifica com a letra, a mensagem da música, existe uma grande probabilidade de você pensar da mesma maneira que o artista. A música estaria então, reforçando ainda mais as ideias que você já possui em mente.

Isso fica super evidente em um show, todas aquelas pessoas cantando em sincronia a música junto com o cantor, nada mais é do que uma expressão coletiva de um sentimento, de uma forma de pensar.

Logo, se um artista sofre com problemas de relacionamento, e coloca isso em suas músicas, é possível identificar claramente quais foram os motivos para ele estar sofrendo de tal forma. É o que vamos analisar nesse texto, utilizando alguns exemplos de músicas da Marília Mendonça, nossa musa da sofrência.

Claro que essa questão não está presente somente em músicas sertanejas, podemos observar mensagens não muito saudáveis sobre relacionamentos em novelas, filmes, sobretudo na cultura ocidental em geral.

6 lições sobre relacionamento que você não vai aprender ouvindo Marília Mendonça:

1. As pessoas são inconstantes (De Quem É A Culpa?)

“E que se dane a minha postura
Se eu mudei você não viu
Eu só queria ter você por perto
Mas você sumiu

É tipo um vício que não tem mais cura
E agora de quem é a culpa?
A culpa é sua por ter esse sorriso
Ou a culpa é minha por me apaixonar por ele”

Quem nunca conheceu e se encantou por uma pessoa, que não demorou muito para sumir e não dar mais as caras?

É muito triste quando isso acontece, e é exatamente o que Marília Mendonça está vivendo nessa música, o rapaz veio, deixou sua marca, seu jeito especial e único de ser e simplesmente desapareceu. O que sobrou foram as lembranças vazias jogadas ao vento.

Infelizmente, ela, assim como muitos de nós criamos grandes expectativas em torno de uma pessoa que acabamos de conhecer, e nos esquecemos de um detalhe muito importante: a minha realidade não é a mesma do outro, ou seja, ele pode muito bem não estar sentindo o que eu estou sentindo, dessa forma, ele vai continuar se movendo pelo mundo normalmente, desenvolvendo relações paralelas, consequentemente se deparando com um ser que brilhe muito mais.

Sobretudo, as pessoas são inconstantes, elas podem querer algo hoje e amanhã mudar de ideia, todos os dias acontecem pequenos renascimentos em nossas em nossas mentes que vão trilhando lentamente novos caminhos.

Nós temos duas opções nesse caso:

A primeira opção seria seguir a linha de pensamento angustiante da música, ficar tristes e melancólicos, postar no Facebook trechos da música como: “Me apaixonei pelo que eu inventei de você” ou “A culpa é sua por ter esse sorriso”.

Nos casos mais extremos, quando ver o outro na rua, sair correndo, entrando no meio dos carros e dar um chacoalhão gritando freneticamente com uma expressão de louco psicótico: “Você não está me ouvindo?” “Sem você a vida não continua”, “Por que você sumiu?” “Volta pra mim”.

A segunda opção seria ter fixo na mente que as pessoas são inconstantes, elas mudam de ideia e são controversas. A partir disso, depender unicamente de nós mesmos para equilibrar e gerar nossa energia, não podemos em hipótese alguma depender de ser correspondido por alguém para ser feliz e ter vontade de viver.

2. Não somos donos de ninguém (Infiel)

O amor é como um pássaro, livre, e na maioria dos casos, o casamento ou um relacionamento funciona como uma gaiola. Só no brasil, o divórcio cresceu 160% nos últimos 10 anos, sem falar do número alarmante de crimes passionais por motivos fúteis.

O casamento, namoro ou qualquer outro tipo de acordo de exclusividade, é principalmente um artifício falho que as pessoas utilizam para sentir a segurança de que sempre vai ter o outro para si.

Obviamente, não leva muito tempo até umas das partes, por inúmeros motivos, começar a achar esse acordo estranho, desconfortável e inadequado.

Surgem então músicas como o Infiel de Marília Mendonça.

“Descobri faz um ano e tô te procurando pra dizer
Hoje a farsa vai acabar”

Quanto tempo o amor vai durar? Não sabemos…

O que sabemos é que o amor vai e vem. As vezes ele demora para ir, e às vezes ele se dissolve tão rápido como um cubo de açúcar mergulhado no café, então querer forçar um relacionamento eterno de exclusividade com um ser que tem vontade própria, tem sua própria vida, seus gostos e desejos mutáveis, de fato é uma atitude estúpida e imatura.

3. Não somos o nosso relacionamento (A gente não tá junto)

Muitos casais, depois de um período razoável de relacionamento, acabam criando uma espécie de “identidade compartilhada”, onde um não é ele mesmo sem o outro. Esquecer os amigos e adaptar seus gostos ao do parceiro se torna uma prática perfeitamente natural.

É como se duas pessoas vivessem dentro de uma bolha melancólica, compartilhando o mesmo ar que respira. Se um sorri, o outro também sorri, se um está triste, o outro também fica triste. O sofrimento surge quando uma das partes se ausenta de dentro dessa bolha ou não corresponde mais aos movimentos do outro.

“Ninguém me reconhece sem você
No canto jogado
Cheio de gente pra todo lado
A música alta é ruim
Conhecer gente nova eu não tô a fim”
“Aqui tomando todas só falta você
Cadê que não atende o celular?
E o meu coração que não muda de assunto
Toda hora ele tem que lembrar”

Mais uma vez, nossa visão está tão embaçada pelo véu do relacionamento que não conseguimos olhar para o outro em seu próprio mundo, não conseguimos respirar sozinhos sem o outro.

Imagina que triste está tão condicionado a presença do outro, ao ponto de ninguém te reconhecer sem seu parceiro, ao ponto de você estar numa festa e não querer conhecer ninguém e ainda por cima achar que a música alta é ruim, o que antes achava super legal e animador.

Nós não somos o nosso relacionamento, precisamos aprender a respirar sozinhos, porque no dia em que o namoro, o casamento, a amizade acabar, nós não podemos ter uma parada respiratória e morrer de viver.

4. O amor romântico é uma construção social (O que é amor para você?)

Ah, o amor romântico…!

O amor romântico pode arruinar sua vida amorosa. Esse conceito de “amor ideal” é uma construção da cultura ocidental, onde perseguimos o inatingível, nos frustramos e nos sentimos inadequados quando não o alcançamos.

Todos nós temos em nossas mentes uma narrativa pré definida de como devem ser as coisas, isso vale para tudo em nossas vidas, inclusive para nossos relacionamentos.

A narrativa do amor romântico, possui um ideal de que o parceiro perfeito, tem a responsabilidade de nos fazer feliz e suprir nossas necessidades sociais, sexuais e pessoais. Que lindo, não? – Não!

“Eu sei, acabei te assustando
Todo dia um novo plano
E você só queria um tempo, um momento, um instante de prazer
Então me diz o que é amor pra você?
Até agora não consigo entender
Se eu fui o que muitos procuram”

Ou seja, a narrativa de amor da Marília Mendonça, consiste em quando conhecer uma pessoa legal, rapidamente descolar “todo dia um novo plano” Imagine o quão sufocante pode ser isso.

Muitas vezes é preciso parar para reescrever essas narrativas em nossas mentes, a fim de mudar para melhor a forma como agimos diante de certas situações.

O amor comum, como a maioria das pessoas acham que é, pensa da seguinte forma: “Eu te amo, por isso eu quero que você me faça feliz.” Já o amor genuíno diz: eu te amo, por isso quero que você seja feliz. Se isso me incluir, ótimo! Se não me incluir, eu só quero a sua felicidade.”

Muitos de nós confundimos o amor com apego, nós seguramos o outro com bastante força. Mas o amor genuíno é como segurar com muita gentileza, nutrindo, mas deixando que as coisas fluam. Não é ficar preso com força. 

É muito difícil para que as pessoas entenderem isso, porque elas pensam que quanto mais elas se agarram a alguém, mais isso demonstra que elas se importam com o outro.

Qualquer tipo de relacionamento no qual imaginamos que poderemos ser preenchidos pelo outro será certamente muito complicado.”

Quanto mais agarramos o outro com força, mais nós sofremos.

5. Um relacionamento que não acabou bem nunca é tempo perdido. (Até o tempo passa)

Podemos comparar relacionamentos afetivos que não acabaram muito bem, com a leitura de um livro difícil de se entender como é o caso de “Matrizes do pensamento psicológico” de Figueiredo e “O mestre e a Margarida” de Mikhail Bulgákov. Ambas leituras são extremamente complexas – a princípio, mas com o tempo e o nível de amadurecimento adequado, podemos sim entender o que os autores querem dizer.

Da mesma forma, muitas vezes precisamos de tempo e amadurecimento para conseguir entender o que um relacionamento trouxe para nossas vidas. Não importa se foi um aspecto negativo, ou positivo, sempre podemos aprender algo novo, que será útil para as relações futuras.

“Se até o tempo passa
Imagina o seu amor
Devolve o meu tempo
Que eu fiquei ligando, mandando mensagem
Implorando por favor
Vou te cobrar com juros o que você me tirou”

Convenhamos que não é lá muito saudável cobrar com juros o “Tempo que eu fiquei ligando, mandando mensagem, implorando por favor” Afinal, é possível de fato reaver o tempo?

“Ela terminou comigo do nada, mesmo depois de eu ficar anos levando ela no trabalho, todos os dias eu dirigia 40km para agradar ela. Agora ela vai me pagar com juros todo tempo que eu perdi” – [Autor suprimido]

Imagine como essa pessoa vai cobrar o “tempo perdido” Eu garanto que não vai ser de forma amigável.

Mais uma vez, entramos na questão de agressões físicas e verbais a fim de reaver o que foi perdido. Se você acredita fielmente que o tempo, amor, dedicação e atenção são coisas tangíveis, concretas, nas quais você pode realmente perder, sinto muito, mas você ainda vai sofrer muito em relacionamentos.

6. Cultivar empatia e compaixão (Sofrendo por 3)

A falta de lucidez é o principal motivo para as confusões mentais enfrentadas nas relações. A seguir temos o trecho:

“Fique por aí
Amando por um
Querendo por dois
Sofrendo por três
(…)
“Você não tem coração
Você aprontou por seis
Agora é minha vez”

Quando alguém nos causa algum tipo de mal, a mente comum reativa, desliga o painel da empatia e compaixão e liga o painel da reação equivalente, ou seja, vem o desejo de pagar com a mesma moeda.

Isso só gera mais sofrimento. Agora que o rapaz abraçou outra madrugada, o correto seria deixá-lo sofrendo por três e ainda por cima causar mais sofrimento fazendo o mesmo?

Por que não tentar ajudá-lo a se livrar desse sofrimento?

Podemos exemplificar essa questão com a Metáfora das crianças no rio.

“Sentados à beira do rio, dois pescadores seguram suas varas à espera de um peixe. De repente, gritos de crianças trincam o silêncio.

Ambos se assustam, olham em frente, olham para trás.

Os gritos continuam e nada. Vêem então que a correnteza trazia duas crianças, pedindo socorro. Os pescadores pulam na água. Só conseguem salvá-las à custa de grande esforço. Mais berros quando estão prestes a sair do rio. Notam quatro crianças debatendo-se, tentando salvar suas vidas. Só conseguem resgatar duas e sentem, além do cansaço, a frustração pela perda.

Não refeitos, ofegantes, exaustos, escutam uma gritaria ainda muito maior. Desta vez, oito pequenos seres vêm sendo trazidos pela correnteza. Um pula na água, o outro vira-se rumo à estrada que acompanha a subida do rio.

O amigo que pulou na água grita:

– Você enlouqueceu, não vai me ajudar?

Sem parar o passo, o outro respondeu:

– Tente fazer o que puder. Vou verificar por que as crianças estão caindo no rio.

Combater o efeito é ser eficiente, mas combater a causa é ser eficaz.”

Sendo assim, sempre devemos investigar a situação a fim de entender porque o outro está agindo de tal forma. Combater a causa é ser eficaz. Desenvolver os meios hábeis pelos quais nos aproximamos e beneficiamos as pessoas é a solução.

Aqui entram as práticas que abrem o coração e melhoram nossa ação no mundo.

E lembre-se desses três processos, para quando você sentir que vai começar a sofrer por relacionamentos:
  • parar de se debater,
  • investigar o motivo,
  • ajudar o outro em sua confusão