A Psicologia por trás do Instagram sem Likes

O Instagram anunciou que não vai mais exibir o número de curtidas em fotos e visualizações em vídeos. Como isso afetará nossa relação com a rede social?


Para entender melhor as implicações, vamos dar alguns passos para trás, voltando lá no inicio das redes sociais.

Uma das características mais marcantes de uma rede social até agora é a métrica das interações, um recurso utilizado desde o primórdio das redes.

Na verdade a metrificação é uma linguagem muito comum na internet, sempre houve uma contabilização do número posts, número de visualizações, número de comentários, número de acessos, etc.

Talvez essa fixação em quantificar tenha surgindo muito naturalmente, afinal é muito fácil calcular tudo em um mundo feito de bits.

Assim, cada rede social utiliza essa possibilidade a seu favor. O last FM conta quantas vezes você escuta um artista, uma música e compara seu gosto musical com o de seus amigos.

Na época do Orkut se valorizava muito a quantidade de depoimentos, Scraps, amigos, e atualmente temos o fenômeno dos Likes ou Curtidas, adotado por muitas redes sociais.

A questão X é que cada métrica possui (ganha na verdade) um papel simbólico muito importante para as relações nas redes sociais, influenciando o comportamento dos usuários.

A Psicologia dos dos Likes

Sob o olhar da Psicologia, podemos fazer um paralelo com uma observação feita por Skinner, que elencou 5 práticas da sociedade moderna que visa o prazer e consequentemente está ligada a depressão.

Uma dessas práticas é o forçamento excessivo de comportamentos “passivos”, ou seja, deslizar o feed do Facebook ou do Instagram, dar biscoitos (gíria para dar curtidas) são comportamentos atraentes, cativantes, curiosos, divertidos, gostosos e encantadores.

No entanto esses comportamentos não reforçam mais que olhar, saborear, assistir, ler e ouvir sentado no sofá, deitado na cama, ou em pé no metrô.

Além disso, receber curtidas significa aprovação e é um sistema de recompensa. Existem ainda vários estudos que falam dos efeitos que isso causa em nosso cérebro, como por exemplo a liberação de dopamina, hormônio ligado ao prazer.

Dessa forma, uma massa de usuários se movimentam para obter cada vez curtidas, ao ponto de um usuário apagar uma foto porque não obteve curtidas “suficientes” e gerar notícias do tipo: “

“Selena Gomez bate recorde mundial no Instagram conseguindo 1 milhão de curtidas em 13 minutos”

E fazem isso da forma mais óbvia, compartilhando uma estética construída para parecer real e desejável. Isso se traduz em padrões de corpo, estilo de vida, alimentação, etc, que é inalcançável para a maioria das pessoas.

Obsessão por métricas no Instagram
Obsessão por métricas

Em paralelo existem ainda pessoas que ganham dinheiro com likes. Os influencers digitais tem a capacidade de atrair o interesse de empresas em vincular publicidade em suas contas, ou até mesmo vendem seus produtos e serviços. Quanto mais curtidas, maior o alcance e maior a possibilidade de gerar renda e prestígio.

Por que ocultar as curtidas do Instagram?

Conforme divulgado pelo site TechTudo, o discurso inicial é de que a ideia é “tirar a pressão” de cima do usuário.

“O Instagram entende que a sua rede social deve ser um local para as pessoas se expressarem, e não um concurso de popularidade. Além disso, querem deixar o ambiente menos tóxico e competitivo. “

Contudo, os estudiosos do Instagram, uma equipe responsável por analisar as dinâmicas sociais e aumentar os lucros, identificou que esse mecanismo atual de busca frenética por curtidas favorece muito mais quem gera receita com o Instagram do que o mesmo.

O sistema de publicidade paga, principal fonte de renda do Instagram não está obtendo retorno satisfatório porque muitos não precisam pagar para ter alcance. Na fato muitos investem sim, mas esse dinheiro vai para terceiros que vendem curtidas e o Instagram perde muito quando a moeda de troca é o like.

Então a ideia de ocultar as curtidas é de fato “genial”. Uma vez esse símbolo da aprovação é removido, quem faz dinheiro com curtidas será obrigado a inventar outra forma para obter relevância.

Até o momento, sem os likes, a única forma de alcançar um público maior seria pagando para o Instagram impulsionar as publicações.

A psicóloga Pamela Rutledge alerta que remover a economia de likes não acabará com os problemas que a rede social causa em pessoas com baixa auto-estima, nem irá favorecer aqueles que usam a comparação social de maneira insalubre.

“Os usuários do Instagram distorcem muito a realidade e os mais afetados são os adolescentes e jovens adultos, que estão construindo sua identidade e encontram nas redes sociais referenciais.”

Sobretudo, essa mudança é muito mais econômica do que qualquer outra coisa.

O grande Pai, Facebook já tem demonstrado com seu número de usuários cada vez mais baixo que a lógica das curtidas não faz mais sentido, então agora de fato é a hora de reinventar a forma como as pessoas percebem e interagem com o serviço (em prol deles mesmos, obviamente) antes que seja tarde demais.

Novos Rumos

Muito se discute sobre o que vai substituir os Likes ecomo os influencers vão conseguir provar seu valor agora que essa métrica não será tão explicita. De qualquer forma, cada usuário saberá exatamente quantas curtidas uma foto ou vídeo recebeu, porém, isso não estará aberto para o público.

Se especula que as as pessoas começarão a usar mais os comentários, compartilhamentos e novas formas de exibir conteúdo serão criadas. Tudo indica que esse grande teste se bem sucedido também será replicado no Facebook.