A psicologia do êxtase

 

Os homens morrem em desespero, enquanto os espíritos morrem em êxtase.” – Balzac

A felicidade é considerada tão importante quanto a declaração dos direitos humanos. O engraçado é que a felicidade pode significar uma coisa para mim e outra para você.

Existe um conceito diferente para pessoas diferentes. Em um nível, ela pode ser uma mistura (bem grande) de emoções positivas ou agradáveis, como aceitação, contentamento, gratidão, emoção e alegria. Em outro nível, pode ser associada em termos de desenvolvimento humano ou uma boa vida. Mas não vamos falar propriamente de felicidade, nós vamos além disso, vamos falar sobre euforia, particularmente em êxtase.

A palavra “euforia” (εὐφορία) vem do grego, que significa literalmente “poder perseverar facilmente”. O termo tem sido utilizado para definir qualquer forma intensa de sentimento positivo, especialmente quando se fala em uma qualidade abstrata ou expansiva. Essa euforia intensa não é muito comum no curso normal da vida humana, mas pode ser introduzida por certas substâncias e certas experiências, como beleza, arte, música, amor, orgasmo, exercício físico e triunfo. Também pode ser o resultado de uma série de transtornos psiquiátricos e neurológicos, o primeiro deles é o transtorno bipolar.

O auge da euforia é o êxtase, que significa literalmente “ser ou estar fora de si mesmo”. Êxtase é um estado de transe em que a consciência do sujeito de dissolve ou se funde com um objeto, digamos assim. Einstein chamou de “emoção mística”, e falou como se fosse o “germe de toda a arte e de toda a ciência verdadeira.” E “o cerne do verdadeiro sentimento religioso”

O homem é por natureza um animal religioso, e a maioria, se não todas as culturas têm interpretado o êxtase como uma possessão divina ou revelação. Muitas tradições procuram alcançar o êxtase religioso ou a”iluminação” através de vários métodos, incluindo meditação, intoxicação, e dança ritualísticas. Pessoas não religiosas também podem experimentar o estado de êxtase, na maioria das vezes “por acidente”. Dessa forma, ateus e agnósticos são capazes de experimentar a “mais profunda religião” sem caminhar por nenhum caminho de qualquer religião em particular.

Rumi

Dançarino Sufi

É difícil de descrever o êxtase, em parte porque é incomum. A menos que seja induzido, é mais provável que se manifeste após um longo período de inatividade, especialmente um período de inatividade fora da rotina, em uma experiência nova-desconhecida ou sobre um conjunto de circunstâncias. A experiência é tipicamente descrita como deliciosa, além da expressão, é o primeiro episódio de uma mudança de vida. Durante o episódio, a pessoa entra em estado de transe, que normalmente dura alguns minutos ou horas. Nesse intervalo é possível sentir um grande senso de paz e tranquilidade, cair em lagrimas e ficar irresponsivo ao ponto de inconsciência.

Um dos meus amigos descreveu a experiência dessa forma:

Parecia a realização última da minha vida, mas mais do que isso, o comprimento de toda a vida, da própria vida. E colocou tudo em perspectiva, deu toda uma união, propósito e nobreza…me transformou completamente. Até hoje, tudo o que eu faço, e o que eu deixo de fazer, é baseado em uma visão, baseado naquela realidade. É como se um canal de luz e vida tivesse surgindo em minha mente. Eu me sinto mais alerta e vivo, e frequentemente tenho flashbacks da experiência original. Esses flashbacks surgem através de coisas bem simples como o canto de um pássaro, a luz do sol iluminando uma sala, uma expressão fugaz de um rosto amigo, ou qualquer coisa que me lembre gentilmente que, sim, estou vivo!

O êxtase pode levar a uma ou várias epifanias. Uma epifania, ou “momento eureca” pode ser definida como uma realização súbita e impressionante, especialmente uma realização original e profunda. Por exemplo, meu amigo me disse ele rasgou seu currículo depois de perceber que qualquer coisa que ele colocasse lá não “valeria a pena” no final das contas.

Em sânscrito, “epifania” é interpretada como “bodhodaya”, que deriva da palavra “bodho” (sabedoria) e “udaya” (elevação), assim, literalmente significando “elevação da sabedoria”

A característica definidora do êxtase talvez seja a dissolução de fronteiras, com o ego se unificando em todo o ser.  E hoje, mais do que qualquer outro momento da história da humanidade, a nossa cultura vem enfatizando a supremacia soberana do ego, e assim, separando ao máximo a responsabilidade de cada um de nós.

O ego tem seus interesses particulares e acha que esses interesses não coincidem com o desejo do Todo. Então não dão nenhuma chance do Todo provar que a melhor opção é Ele. É por isso que a solução dos problemas demora e se eterniza. – Professor Hélio Couto.

Desde pequenos somos ensinados a permanecer no controle do nosso ego com o objetivo de projetá-lo o mais longe possível. Como resultado disso, perdemos a arte de deixar ir, ( let it go) e na verdade, nem sequer reconhecemos a possibilidade, levando a uma pobreza ou a monotonia da experiência consciente.

Verdade, a dissolução do ego pode ameaçar a vida que nós construímos e até mesmo a pessoa que nos tornamos. Mas também pode nos libertar da normose e dos condicionamentos, permitindo experimentar um mundo, não apenas maior, mas também mais brilhante e rico.

As crianças possuem um ego quiescente ou unificado, eu me pergunto se seria por conta disso que elas transbordam de alegria. A juventude e o êxtase são ecos da sabedoria primordial.

  • Texto publicado originalmente no site Psychology today. Escrito por Neel Burton, autor do livro “O mundo de Platão e entre outros.

Referências:

http://heliocouto.blogspot.com.br/2015/07/mandala-unificacao-com-o-todo.html
https://www.psychologytoday.com/blog/hide-and-seek/201501/the-psychology-ecstasy